VAMOS ESPERAR ELE VESTIR A SUÁSTICA PARA TER CERTEZA

Bolsonaro, Nazismo e Jojo Rabbit

O Instituto Brasil-Israel emitiu uma nota em repúdio ao encontro ocorrido entre Jair Bolsonaro e uma das líderes da ultradireita alemã, a deputada Beatrix von Storch. A deputada é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças na Alemanha nazista, e também investigada por incitação ao ódio. E o mais assustador é que podemos considerar esse um dia normal na agenda do presidente.

Em janeiro de 2020, o então secretário de Cultura, Rodrigo Alvim, publicou um vídeo no qual copiava trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista, afinal, seria esperar muito que um secretário de Cultura de Bolsonaro soubesse escrever. Mas essa não foi a única vez que apoiadores bolsonaristas demonstraram publicamente uma certa simpatia pelo nazismo. Em outra ocasião, o assessor da Presidência, Filipe Martins, virou réu na Justiça Federal por ter feito um gesto racista durante audiência no Senado. E houve outros casos, porém, citarei apenas esses, já que o limite de caracteres do Medium não suporta tamanho volume.

Agora, curiosamente, em julho do ano passado, o cartunista Renato Aroeira foi alvo de uma investigação por causa de uma charge de Bolsonaro. No desenho, o presidente aparece com um balde e um pincel nas mãos depois de pintar as pontas de uma cruz vermelha (símbolo usado em hospitais e ambulâncias) e transformá-la em uma suástica (símbolo do nazismo). Segundo o ministro da Justiça, André Mendonça, o pedido de investigação se baseia na Lei de Segurança Nacional, já que a suástica deixou Bolsonaro profundamente ofendido, algo pelo qual todos nós deveríamos agradecer o ilustrador.

É muito estranho como o Bolsonaro não quer ser chamado de nazista enquanto ele (e seus apoiadores) se esforçam bastante para confirmar que, sim, ele é. Uma boa maneira de não ser considerado um nazista é, à principio, não se encontrar com uma. Funciona quase sempre. Muitos analistas políticos dizem que o Governo Bolsonaro não é nazista, mas "alimenta práticas nazistas". Esse é um jeito interessante de olhar as coisas: Alfredo se veste de palhaço, com sapato grande, flor que esguicha água, peruca colorida e mora num circo. Mas ele não é um palhaço. Apenas alimenta práticas circenses.

Não querendo parecer injusto, gostaria de descrever e analisar um filme sobre o nazismo alemão, para descobrirmos se o governo ganharia a atenção do Führer. Vou inserir junto ao texto frames a fim de criar um apoio visual.

O filme escolhido é Jojo Rabbit, de Taika Waititi.

Créditos de "Jojo Rabbit"

Jojo Rabbit é a história de um garoto alemão de 12 anos aspirante a membro da juventude nazista que tem como amigo imaginário Hitler. Um dia, Jojo encontra uma garota judia morando em seu sótão e a partir daí desenvolve uma relação de afeto com a refugiada, confrontando assim seus ideais nazistas. Baseado no livro de Christina Leunens, o filme é uma sátira que usa de uma abordagem diferente para tratar das barbaridades ocorridas na Segunda Guerra. Jojo Rabbit enquadra o nazismo como algo fundamentalmente externo a experiência humana, não para sugerir que não seja realizado por humanos, mas que é a manifestação de algo que está em oposição a qualquer senso de humanidade. Isso é logo exemplificado nos primeiros minutos do filme, onde o diretor insere um tom de normalidade no cotidiano do garoto:

Trecho de "Jojo Rabbit"

Os populares vão aos mercados, fazem compras; tudo parece normal. Muitas pessoas tendem a associar regimes totalitários com uma ruptura democrática, mas, na verdade, o nazismo (e o fascismo) podem muito bem se apresentar como algo tão banal quanto, sei lá, um passeio de moto. Em 2014, após o golpe militar na Tailândia, turistas tiraram fotos com soldados como se nada tivesse acontecido. Isso acontece porque o totalitarismo nasce através de um processo acumulativo, de pequenos ataques à democracia.

Cena do filme "Jojo Rabbit"

Quando cidadãos fingem que não enxergam esses comportamentos, uma realidade nazista encontra um terreno fértil para se enraizar, algo que é exposto bem cedo no filme, quando Jojo e sua mãe, Rosie, se deparam com os corpos de pessoas enforcadas pelo regime, enquanto a rotina na vila em que moram segue da forma mais tranquila possível. Jojo não enxerga as ações ao seu redor porque está afundando em uma visão de mundo completamente deslocada da realidade.

Cena deletada de "Jojo Rabbit"

Isso ocorre porque o nazismo costuma operar através de uma máquina vasta de propaganda e doutrinação, criando muitas vezes inimigos imaginários que precisam ser exterminados. Porque esse é um dos principais combustíveis do nazismo. Todo o governo autoritário precisa evocar uma ameaça imaginária, aterrorizante, que é o próprio mal encarnado. Os nazistas precisam de um inimigo demonizado para mobilizar os seus seguidores na luta contra ele. O que importa a um líder nazista não é se livrar do inimigo — que sequer existe na maioria das vezes — , mas mantê-lo bem próximo. Em Jojo Rabbit, os inimigos, é claro, são as minorias sociais. O garoto, inclusive, escreve um livro ao longo do filme onde trata os judeus como criaturas cruéis, místicas, que ameaçam a grande nação alemã, que, na visão do garoto, é uma vítima dos terríveis judeus. E esse é justamente o caldo emocional que dá vida ao nazismo e cria um nacionalismo apaixonado.

Atrizes contracenam em cena de "Jojo Rabbit"

A proposta é muito simples: o nazismo procura fabricar inimigos para que a população não veja os reais problemas pelos quais estão passando. E, no filme, o trabalho dos nazistas é fácil. Jojo é um garoto profundamente inseguro que quer se encaixar de alguma forma, e, portanto, acredita em todas as mentiras que lhe são contadas. Por trás dessa doutrinação ideológica, existe uma imposição um pouco mais sútil. Uma das razões pelas quais Jojo não se encaixa, é porque ele não é cruel o suficiente para matar um coelho. Somente abraçando ódio sem ressalvas, Jojo se tornará um verdadeiro patriota.

Cena do filme gerou "polêmica"

No campo juvenil, onde Jojo estuda, os meninos são ensinados a serem violentos e assassinos, enquanto as meninas são ensinadas a ficarem em casa e ter filhos para a nação alemã.

Making of de "Jojo Rabbit"

A idolatria ultranacionalista, militarista e perigosa de Jojo entra em desacordo depois que ele descobre que Rosie está escondendo uma refugiada judia nas paredes de sua casa. A partir do momento que Jojo começa conhecer a jovem melhor, abrindo um campo de diálogo, sua humanidade o faz interrogar a crueldade que lhe foi ensinada. O seu melhor amigo imaginário garantiu que os grupos minoritários são ruins, mas, para Jojo, a garota não parece ser uma criatura perigosa com poderes de outro mundo. Ainda assim, em regimes nazistas, perseguições são essenciais e manifestantes são criminosos que ameaçam a sociedade. Quem expressa abertamente o seu ponto de vista está sujeito a enfrentar perseguição. A liberdade de expressão é punida e notícias falsas são disseminadas para desorientar o público.

E, por conta disso, um dos principais inimigos do nazismo é a arte. A arte é o contrário da mentira porque evoca a verdade e leva a sentimentos que o nazismo não alcança. A arte é arma que a mãe de Jojo usa para ligar o filho a sua humanidade sufocada pelo regime. Em uma cena chave do filme, agentes nazistas surgem na casa de Jojo para investigar a presença de judeus, e o elemento usado para criar tensão, é justamente as caricaturas feitas pelo menino. E os agentes ficam incrivelmente preocupados com o significado daqueles desenhos.

Mas, provavelmente, isso é apenas uma grande coincidência e talvez seja melhor esperar o Bolsonaro vestir uma suástica para ter certeza.

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Daniel Duncan

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