Em um episódio de Comedians in Cars Getting Coffee, Jerry Seinfeld conversa com Garry Shandling sobre o falecimento do comediante David Brenner, patrono da comédia observacional, e lamenta por todo seu material que, junto com o comediante, entrou para o esquecimento. Garry Shandling, por sua vez, ri do comentário, e com um saber de experiências feito diz:

Shandling: Sinto muito, Jerry, eu estou em uma fase da minha vida na qual realmente me importo com as pessoas [não apenas com seu material]. Eis o que pensei que você diria: “Você percebeu quando David Brenner morreu a impermanência da vida?”. Nunca pensei: “Deus, lá se vai um monte de piadas boas!”. É hilário que você pense assim.

Seinfeld prossegue com seu pensamento:

Seinfeld: Quero dizer, essa foi a parte difícil [criar o material]. Qualquer um pode sair por aí e viver, isso é fácil. Agora, todo esse material, ele trabalhou tão duro e, agora, que se foi, não significa mais nada para ninguém. E deu tanto trabalho para criá-lo.

Garry vendo diretamente as ansiedades quase invisíveis de Seinfeld sobre seu próprio legado, diz:

Shandling: Esse material e o seu material são puramente um veículo para você expressar seu espírito, sua alma e seu ser.

Seinfeld: Então, [o material] não tem nenhum valor além disso?

Shandling: Não tem nenhum valor além de você se expressar espiritualmente. É por isso que você está no planeta. Quem assistiu Robin Williams nos anos 70, não se lembra de todo seu material, do que ele disse ou não disse. Lembramos daquela presença.

Shandling em poucas palavras capta artisticamente o valor oculto e a excelência da produção de um material cômico. O trabalho de um humorista é um veículo para expressar seu espírito e alma, no sentido de identidade.

Dave Chappelle me parece ser um perfeito exemplo disto.

Sempre que sou submetido a um novo material dele, eu nunca fico com a impressão que estou simplesmente consumindo um pacote novo de piadas.

A sensação que me atravessa é que estou dando continuidade a uma conversa, com um amigo que conheço pouco, que precisou se retirar por alguns minutos e retornou mais tarde para concluir um raciocínio. Essa sensação, às vezes, se torna tão familiar que mais parece que foi planejada. Em sua participação no programa Saturday Night Live de 2016, logo após a vitória de Trump, um dos temas que Chappelle escolheu abordar foram os tiroteios na América (mais precisamente o massacre na boate em Orlando):

Em uma nova participação no programa que foi ao ar no último sábado, após a vitória de Biden, ele retorna ao tópico, mas com outra abordagem:

Vocês se lembram de como era a vida antes da COVID? Eu lembro. Tinha um tiroteio toda semana. Vocês se lembram disso? Agradeço a Deus pela COVID. Alguém tinha que trancar esses brancos assassinos em casa e mantê-los afastados durante todo o verão.

Eu acredito que um bom comediante é como um filtro. Um bom comediante consegue filtrar uma atmosfera e traduzi-la em piadas. Mas isso não é tão fácil quanto parece. Geralmente a realidade costuma ser mais complicada. Quando John Oliver faz piadas sobre a indústria do tabaco, por exemplo, aquilo, por mais factível que seja, é uma realidade fabricada, que cumpre uma função dentro de um discurso. Antes mesmo da peça humorística terminar, a gente meio que já sabe onde ele quer chegar. Os “poréns”, os “mas”, não tem espaço aqui. O objetivo é estabelecer um ponto. Dave Chappelle, por outro lado, é uma rara exceção. Ele não parece interessado em fazer pontos, mas em absorver a temperatura que paira sobre nossas cabeças. É por essa razão que “8:46”, especial de stand-up publicado na altura das manifestações de junho, não me pareceu estranho. As longas pausas, a tentativa de fazer piadas e não conseguir; tudo isso faz muito sentido. Quem acompanhou o caso de George Floyd e a repercussão em torno de sua morte, dificilmente conseguiria se expressar de outra maneira. A atmosfera era essa.

Mais uma vez, em sua participação no SNL, Dave Chappelle parece entender perfeitamente o que está acontecendo. O set reflete a euforia, a confusão e a sensação de incerteza na América. Ele compreende a ruptura na classe média, mas não nega a necessidade (e a importância) de uma reconciliação. Quando ele fala em como a sociedade olha o vício em drogas e a assistência do governo de uma maneira diferente quando os viciados são brancos, ele não parece interessado em atacar diretamente a hipocrisia, ou as escolhas que tornam as vidas das pessoas piores. É um olhar mais imersivo. Ele sugere entender essa situação, de milhões de pessoas, abandonadas em seu próprio país, e diz que esses sentimentos espelham as experiências dos negros ao longo de gerações. O interesse dele não é apontar os erros, os problemas que fizeram os americanos chegarem ali, porque, bem, a realidade é mais complicada.

Chappelle tenta mostrar que toda essa espiral de ódio e confusão se deve ao fato de que muitos americanos brancos estão entendendo agora, durante uma pandemia e uma epidemia de drogas, que, talvez, o governo não se importe com eles. A comunidade negra, segundo Chappelle, sempre entendeu isso. Um país só pode ser salvo se seus habitantes entenderem que precisam salvar uns aos outros primeiro. Em outras palavras, não é uma eleição que cura as pessoas, mas um entendimento mais profundo entre as pessoas. Ele ilustra isso nos minutos finais do set quando diz algo como:

Eu preciso lembrar vocês que estão comemorando que é bom ser humilde na vitória. Lembra quando estive aqui, há uns quatro anos, lembra o quão ruim foi aquilo? Lembre-se de que metade do país agora se sente assim. Por favor, lembre-se disso. Lembre-se de que, pela primeira vez na história da América, a expectativa de vida dos brancos está caindo por causa da heroína, por causa do suicídio. Todos esses brancos lá fora sentem aquela angústia, aquela dor, aquela loucura, porque acham que ninguém liga para eles. Deixe-me dizer uma coisa, eu sei como é isso. Se você é um policial e toda vez que veste seu uniforme, sente que tem um alvo nas costas. Oh, cara, acredite em mim, eu sei como é isso. Todo mundo sabe como é isso. Mas aqui está a diferença entre eu e você. Vocês transformam essa sensação em ódio e eu não odeio ninguém. Eu simplesmente odeio essa sensação. E é por isso que eu luto. E é por isso que eu sugiro que você lute. Você tem que encontrar uma maneira de viver sua vida, você tem que encontrar uma maneira de perdoar. Você tem que encontrar uma maneira de encontrar alegria em sua existência, apesar dessa sensação.

Eu sempre fui atraído por um tipo de arte que costumava ser classificada como “perigosa”. O cinema novo, como bem disse uma vez Glauber Rocha, foi um cinema perigoso. A busca por uma linguagem própria tende a ser uma experiência desafiadora (em qualquer contexto ou circunstância). Um “comediante perigoso” diz coisas que você não quer saber ou admitir. Em geral, a comédia é vista como um alívio, uma espécie de conforto, já que a vida é demasiada difícil e ninguém quer lidar com as questões incômodas. Comédia como entorpecente, eu diria, antes que você comece a pensar. O que gosto no Dave Chappelle é que sempre há um esforço para diluir pensamentos difusos que nos fazem acreditar que o racismo (e outros problemas em nossa sociedade) são puramente frutos do ódio. Nossas vidas não funcionam como experiências distintas, mas como experiências que se reforçam mutuamente. Ele desperta respostas emocionais complexas que vão da raiva à tristeza, sempre com alegria. Você torce o nariz, desvia o olhar, ri, se encolhe, e, sobretudo, escuta. Estamos constantemente buscando por super-heróis, mas a verdade é que eles só existem na ficção. A vida real não se resume numa luta entre o “bem e o mal”. A realidade é mais complicada.

Texto escrito por Daniel Duncan.

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