QUANDO A SÁTIRA POLÍTICA DEIXOU DE SER ENGRAÇADA?

No final dos anos 90, quando Jon Stewart assumiu a cadeira de Craig Kilborn no programa The Daily Show do Comedy Central, um novo formato televisivo emergiu na tevê norte-americana. Um jornal com ênfase na sátira política poderia ser tão engraçado e divertido quanto um programa que mirasse apenas em acontecimentos da cultura pop. Não demorou muito e o número de programas que seguiam essa linha multiplicou-se como uma verdadeira praga. The Colbert Report, The Nightly Show with Larry Wilmore, Full Frontal with Samantha Bee, Last Week Tonight with John Oliver, Patriot Act with Hasan Minhaj; são apenas alguns de muitos. No entanto, há de se convir que, hoje, o subgênero passa por uma crise sem precedentes como nunca antes viu.

Após a estreia de Trevor Noah à frente do Daily Show, o jornalista Dave Itzkoff escreveu: “Um novo 'Daily Show' é como uma actualização do iOS. Todo mundo se queixa do tipo de fonte, mas a vida continua”. O comentário do jornalista ilustra bem o sentimento. E não foi o único. Muitos apreciadores do formato estão percebendo que algo está faltando.

O Comedy Central sempre enfatizou que a contratação de Trevor Noah significava “recalibrar o programa” para uma nova geração. E eles não poderiam estar mais felizes. O Daily Show foi o único late show diário que cresceu ano após ano. Segundo dados da Nielsen, a audiência do Comedy Central cresceu 20% entre os telespectadores na faixa dos 18 — 49 anos em comparação aos anos sem Noah, e cerca de 28% entre o total de telespectadores. “A verdade é que nossa rede é um negócio e nosso público-alvo são os millennials”, disse o presidente do Comedy Central Kent Alterman na altura em que Noah foi contratado. Porém, ao contrário dos programas de Jon Stewart e Stephen Colbert, o tipo de comédia que os fiéis espectadores do Daily Show acolheram é drasticamente diferente, no pior dos sentidos.

Logo após a eleição de Donald Trump, Trevor Noah escreveu um artigo para o The New York Times para posicionar a si mesmo e seu programa como um “instrumentos de cura em uma terra destruída”. A mudança de tom no programa de Noah já era clara quando ele repreendeu um candidato republicano por tweetar com “aqueles dedinhos gordinhos” e por tentar pensar com “aquela cabeça estúpida”, e quando aconselhou o candidato que “talvez você deveria se olhar no espelho, imbecil”. É interessante observar como Trevor Noah, um representante de um espectro político que enfatiza a importância do empoderamento e da autoaceitação, se esqueça desses valores quando precisa derrubar seus inimigos. Mas, como é evidente, ele não foi o único.

Em março de 2017, o programa de Samantha Bee, que segue a mesma linha editorial de Noah, emitiu um pedido formal de desculpas a um jovem careca que compareceu à “Conferência de Ação Política Conservadora”, e quem o programa havia criticado por ter “cabelo nazista”. No final das contas, o jovem estava sofrendo de câncer no cérebro em estágio 4, algo que seria facilmente descoberto pelos produtores do programa na internet, já que o próprio garoto tuitou sobre o diagnóstico pouco antes de ir à conferência.

Noah e Bee estão em um lado político oposto ao de Donald Trump, no entanto, eles bebem da mesma água: compartilham uma tendência para a crueldade verbal e uma disposição para atacar adversários políticos em quaisquer circunstâncias (e meios).

Quando John Oliver disse aos seus telespectadores que mudassem de canal antes de começar a dissecar um tema, ele resumiu bem o tom desses novos programas: espaço de convicção onde ele e seus fãs são intelectualmente (e moralmente) superiores àqueles que defendem uma crença contrária.

É evidente que fazer sátira política não é fácil. Eu mesmo tentei várias vezes e falhei em todas. O objetivo da sátira política é obter entretenimento através da política. Essa é a definição no dicionário. Por sua natureza cômica, raramente a sátira política oferece uma visão construtiva; sendo usada como parte de um discurso, ela tende simplesmente a enfatizar os problemas em questão, em vez de fornecer soluções. Não é muito diferente do que se propõe a comédia em si. Piadas têm sua raiz no erro. As virtudes só servem para a comédia se forem de tal modo excessivas que se transformam em defeitos. Além do mais, piadas baseiam-em em nossas experiências de vida. A função do comediante é interpretar a realidade de um ângulo diferente, extraindo piadas, e fazendo o público rir através de um novo ponto de vista apresentado. Mas uma coisa é apresentar um novo ponto de vista sobre cadeiras, outra coisa, é ouvir piadas sobre tópicos espinhosos, que criam ainda mais barreiras entre o público e o comediante. É difícil ouvir uma piada sobre o seu candidato favorito quando você está desempregado, e o atual terreno da política, repleto de violência e intolerância, explica bem o que quero dizer. Portanto, fazer sátira política não é fácil. Mas o caminho de salientar os defeitos e se colocar como moralmente superior ao adversário político nunca é produtivo, sobretudo, para a sátira, inclusive, isso já foi observado há centenas de séculos. Uma das três famosas teorias que tentam explicar o cômico remete a Sócrates. Chamada de “Teoria da Superioridade”, esta defende que a sensação de superioridade gera o riso, ou a visão de alguma coisa deformada em outro indivíduo, devido à comparação com a qual subitamente enxergamos nós mesmos. O estado de alma em que nos colocam as comédias estaria ligado à inveja como dor e ao riso como prazer diante dos infortúnios alheios. Diz o Sócrates platônico: “Nos cantos de lamento e nas tragédias e nas comédias, não apenas no teatro, mas também em toda a tragédia e comédia da vida, […] a dor mistura-se, ao mesmo tempo, com o prazer”. Portanto, para Sócrates, permitir o riso e a comédia seria expor a alma ao elemento negativo. O desafio da sátira política se encontra nesse limbo: como fazer rir através da política, incluindo os que estão potencialmente dispostos a discordar de mim? Uma resposta que os novos programas satíricos não conseguem responder.

John Oliver parece que foi capaz de prever essa onda da comédia de esquerda. Todos os seus episódios não são uma oportunidade para contar piadas, mas uma oportunidade para educar o público sobre questões sociais e as injustiças ocultas em nossa sociedade. Se antes a sátira política era definida como comédia sobre notícias, hoje, é um noticiário em que, ocasionalmente, surgem piadas. Patriot Act de Hasan Minhaj, lançado pela Netflix, elevou essa característica a máxima potência quando o apresentador literalmente faz uma palestra diante da audiência. E posso garantir que, enquanto comediante, ser chamado de palestrante é a pior ofensa que outro ser humano pode imaginar. Mas se antes fazer sátira política já não era fácil, após a vitória nas urnas de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro, contar piadas sobre políticos se tornou insustentável. Trump e Bolsonaro derrubaram a base na qual os comediantes políticos se apoiavam: apontar as injustiças, os discursos mentirosos e as hipocrisias dos poderosos. Com isso, não quero dizer que a política do século 21 era mais engraçada que a de hoje, mas que comediantes como Jon Stewart tinham a oportunidade de apontar as farsas e a arrogância dos políticos. Como exatamente você satiriza um presidente cujo eleitorado o aplaude quando ele reafirma suas mentiras, como é o caso de Jair Bolsonaro? O Trump de Alec Baldwin, no SNL, arrogante e burro, não é uma paródia do atual presidente norte-americano, é só uma imitação.

Por fim, não é de se admirar que os novos programas de sátira política tenham abraçado outras estratégias em resposta às mudanças. O problema é que nesse caminho a ortodoxia fala mais alto do que o humor. Acho que talvez é chegada a hora de uma reflexão sobre qual exatamente é o papel da sátira, sem pudor, mas como uma fonte credível, cuja opinião interessa ouvir e, sobretudo, faz rir. Até lá, eu me retiro da discussão até a próxima piada.

Texto escrito por Daniel Duncan.

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