Porque o Papa nunca vai ser cancelado

Edward Kinsella III

Há uma frase atribuída a Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov — embora seja uma interpretação de Sartre do trecho original —, que diz:

Verdade ou não, é curioso notar como o existencialismo sartreano parece ser exatamente o combustível que a internet precisa. Nos últimos dias, o Twitter foi soterrado com memes de uma foto de Jorge Mario Bergoglio — ou Papa, para os íntimos — segurando a eucaristia. Entendido como um fato sem importância, a blasfêmia é para mim, um herege confesso, motivo de preocupação. Ao que tudo indica, o meu sonho de ver o Papa sendo cancelado está longe de se concretizar.

O cancelamento do Papa sempre me pareceu um caminho inevitável. Não me entendam mal. Reconheço o enorme esforço de Francisco nos últimos anos, como em 2014, por exemplo, quando resolveu bravamente excomungar a máfia, pois, como bem sabemos, mafiosos costumam ser as pessoas mais propícias a entrarem no céu. Ou ainda quando Francisco supostamente apoiou à comunidade LGBTQ, afirmando que tendências homossexuais “não são um pecado”, uma frase que, diga-se de passagem, diz muito sobre o que é a religião. O Papa é essa estranha figura que recebe aplausos por externar a bússola moral que esperaríamos de uma pessoa normal, dizendo coisas que todos com bom senso vem dizendo nos últimos 50 anos. E por “supostamente apoiou”, quero dizer que, embora tente, o Papa continua preso à contradição inerente aos ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade. Como em uma entrevista do ano passado para a New Ways Ministry, onde ele pede para os católicos pararem de ver as pessoas LGBTQ como “irregulares”, embora, segundo ele, o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja considerado uma “incongruência”. Quer dizer, você pode ser gay, mas casar com outro já seria extravasar todos os limites do aceitável. Em outras palavras, o Papa repudia a homofobia, mas rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque, nesse caso, os homossexuais correriam o enorme risco de viverem com alguém que amam.

Mas o que mais me espanta é a naturalização de algo que não deveria ser naturalizado: os abusos de menores. Se no começo do ano a internet quebrou com os crimes cometidos por PC Siqueira, é estranho até agora nenhum internauta ter sequer sugerido o cancelamento do Vaticano.

No momento, a Igreja Católica continua a ser uma máquina eficiente para acobertar crimes de pedofilia, ajudando criminosos a escaparem da punição, algo que foi precisamente revelado no relatório divulgado pela Suprema Corte da Pensilvânia. Uma pergunta importante a se fazer é: como o Papa João Paulo II conseguiu virar Santo? Seria o acobertamento de milhares de casos de abuso sexual o seu primeiro milagre? Estima-se que um terço do Conselho dos Cardeais estejam envolvidos em escândalos. O que me faz pensar que a fumaça que vimos sobre o Vaticano não tinha nada a ver com a troca de pontífices. É bem mais provável que eles estivessem queimando provas.

Contudo, Francisco, que prometeu tolerância zero, acaba por seguir a mesma cartilha de seus antecessores. As investigações raramente saem da esfera do Vaticano. Talvez o cancelamento não seja a solução, claro, mas que tal uma olhadinha nos discos rígidos? Até agora, a punição para sacerdotes e autoridades do Vaticano que molestam crianças tem sido apenas o afastamento de suas funções. O objetivo nunca é ajudar as vítimas, mas evitar escândalos. Em muitos discursos, o Papa Francisco defendeu abertamente o conceito de laicidade, a separação de Igreja e Estado. O que é ótimo. Só falta agora um esforço em separar padres de coroinhas. Claro que a vida de Papa não é fácil. São muitas prioridades para se administrar. No começo do ano, o Papa admitiu ter perdido paciência quando deu tapas na mão de uma fiel, e pediu “desculpas pelo mau exemplo”. Os coroinhas, por outro lado, ainda estão no aguardo.

Mas acredito que há uma explicação mais profunda para o não cancelamento do Papa, para além, claro, do comportamento da Igreja. Acredito que o motivo seja que, tal qual a moral cristã, a cultura do cancelamento sofre de um problema: o objetivo é separar os santos dos pecadores. As pessoas acabam por ser, simplesmente, boas ou ruins. O que muda são apenas os adjetivos que denotam a maldade ou bondade intrínseca. Muito parecido com a Igreja, o objetivo da cultura do cancelamento na maioria das vezes não é promover justiça, mas fornecer uma discussão vazia sobre escândalos, que serão substituídos no dia seguinte por novos escândalos, sempre que o assunto se esgotar na timeline e parecer insignificante.

Diferente da interpretação de Sartre que é uma tentativa de fugir das questões importantes, o personagem dostoievskiano teve como objetivo apenas lançar uma dúvida. Eu, contudo, como bom democrata que sou, gosto das duas interpretações e formulei a minha própria: “Nem tudo deveria ser permitido; e Deus não existe”.

Mas essa é só a minha interpretação sobre a questão do mal e está longe de ter algum sentido, já que, ao que parece, o Papa e a cultura do cancelamento parecem viver em perfeita harmonia.

Texto escrito por Daniel Duncan.

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