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BILL BURR E O VALOR DE ESTAR ERRADO

Bill Burr é um deles.

Eu nunca fui um fã assíduo do material dele, mas confesso que acho meio impressionante essa habilidade. Isso me ficou mais evidente em uma recente entrevista no quadro Hot Ones, do canal First We Feast, onde é até divertido ver como ele enxerga o óbvio que nos escapa. Ano passado, jogadores de futebol americano se ajoelharam em protesto contra a violência policial e foram igualmente criticados pelo bloco da direita. Perguntado sobre, Burr respondeu: “Alguns policiais matam pessoas. Claro, nem todos os policiais são assim, mas alguns são. Se livrem dos ruins. É um argumento bem lógico”.

No livro The Road to Mars, de Eric Idle, o autor faz uma divisão curiosa, quando sugere dois grupos distintos de humoristas: o palhaço rico e o palhaço pobre. O primeiro é menos performático, contido, cerebral; o segundo é mais histriônico, descontrolado, e irracional. Segundo Idle, o primeiro representa a mente, enquanto o segundo representa o corpo. O primeiro nos recorda a presença constante da morte, e o segundo não nos deixa esquecer os aspectos menos nobres da condição humana. O palhaço rico persegue um viés mais sistemático no humor, ao passo que o palhaço pobre interessa o caos. Jerry Seinfeld, Demetri Martin e Sarah Silverman, por exemplo, seriam palhaços ricos devido a aproximação e o apreço pelas palavras. Jerry Lewis, Eddie Murphy e Robin Williams são palhaços pobres — não no sentido pejorativo — pelo descontrole e a abordagem histriônica das performances. Mas acredito em um terceiro tipo de comediante que resiste a ser incluído em qualquer dessas duas categorias, uma vez que não pertence a nenhuma. Bill Burr é um dos que integram esse terceiro grupo, mais restrito, de humoristas que parecem palhaços pobres na aparência (ou na pose, ou no tom, ou na abordagem) e palhaços ricos na substância.

Eu observo muito isso na postura que Burr emprega na fervorosa discussão sobre limites no humor. Em uma participação no programa Green Room, Burr ao mesmo tempo que convida uma comediante ao debate, criticando-a, é o único que consegue recuar e concordar com ela, ampliando assim a discussão — diferente dos demais comediantes presentes.

Hoje, observo que existem dois tipos de comediantes: os que acham que a liberdade de expressão é o direito de ofender qualquer um, ao passo que o ofendido não pode responder. Uma liberdade sim, mas unilateral, onde toda reação contrária é tida como “perseguição”. Do outro lado, existem comediantes preocupados com o efeito do discurso humorístico, vendo a questão com outro olhar e criando certas arestas — o que também não é bom. Bill Burr navega nesses dois pólos com uma sobriedade fora do comum.

Um exemplo que gosto é o caso de Dave Chappelle. Ele é o meu comediante favorito hoje. No entanto, em seus últimos especiais, depois de fazer comentários transfóbicos, Chappelle mostrou uma faceta — bem comum aos cômicos — preocupante. O que une tematicamente seus quatro especiais, lançados ano passado pela Netflix, é um interesse pelo erro. Em um deles, ele chega a dizer: “Todo mundo fica bravo porque digo essas piadas. Mas você precisa entender que este é o melhor momento para dizê-las. Um comediante tem a responsabilidade de falar de forma imprudente, caso contrário, meus filhos não irão saber o que é falar de forma imprudente. As alegrias de estar errado. Eu não vim aqui para estar certo, eu só vim aqui para zoar”. A primeira parte dessa citação é a mais pura verdade. Comediantes precisam estar autorizados a errar. Já a segunda parte, ao meu ver, é mentira. Ele não está apenas zoando. Indiscutivelmente, Chappelle passou por uma transformação depois que saiu do Chappelle’s Show por causa do desconforto que sentia com a forma como certos fãs brancos estavam rindo de seu material racial e a sua indignação com a indústria. A partir daí, Chappelle criou uma espécie de mitologia em torno da sua figura, onde, dentre outras coisas, buscou ser levado mais a sério. Isso fica ainda mais evidente em seus últimos trabalhos, cheios de monólogos longos que, às vezes, nem chegam a se tornar piadas. Você não pode contar a história de Emmett Till, como ele faz em Equanimity, e dizer que está apenas zoando. Quer dizer, Chappelle quer ser levado a sério, exceto quando erra.

Mais do que qualquer outra forma de arte, o stand-up comedy é definido pelo controle de como o público recebe e processa informações. Logo, se houver reações ruins ao material, você precisa olhar para elas. Comédia é ação e reação. É importante que o comediante saiba como ele quer ser percebido e não apenas esperar que as pessoas simplesmente “saibam”. Não é o mundo que está sensível, não é o mundo que está “certinho”, a culpa não é do público; a culpa é sua mesmo. É uma falha de comunicação. Uma confusão sobre ponto de vista na qual a linha é o benefício da dúvida. Não acredito que o público esteja tão interessado assim em assumir sempre as melhores intenções dos artistas. É utópico pensar dessa forma. É difícil pedir para que o público “adivinhe” quando é para te levar a sério. Tentar balancear duas pessoas em uma só é loucura. Então, finalmente, chegamos ao Bill Burr. Não que ele seja capaz desse balanço, mas ele sabe o valor de “estar errado” e usa isso a seu favor, fazendo o público rir de coisas com as quais discordaria. Ele faz isso usando certas concessões simples, como: “eu sou um idiota”, “eu sei, estou errado”. Esse é um detalhe sútil, que passa despercebido pela maioria, mas que faz toda a diferença. Boa parte das premissas das piadas de Burr partem desse pressuposto: “eu sei que posso estar errado, mas penso que…”. Isso não é por acaso, é intencional. Bill Burr é um sujeito inteligente que sabe usar as palavras para atingir até quem potencialmente discordaria de seus pontos. De fato, como bem disse Chappelle, é importante ter o direito de estar errado, porém, mais importante ainda é saber reconhecer o erro.

Texto escrito por Daniel Duncan

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