Por que a galinha atravessou a rua?

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1.

Lourival Rocha desceu da viatura e pressionou o trench coat contra o corpo enquanto o vento frio acertava seu rosto com tanta força que mais parecia estar munido de um soco inglês. Ele dobrou os joelhos e passou pela fita amarela. Com o olhar baixo, ele viu o horror a seus pés. Imediatamente ele pensou na fragilidade desta estranha condição que é estar vivo, em como a simples picada de um mosquito pode ser capaz de colocá-lo abaixo de sete palmos e, obviamente, no esquecimento. Era assim que Lourival Rocha via as coisas nessa cidade. Um dia você está vivo, no outro, se culpa por não ter comprado uma raquete elétrica adequada. “Ao menos teria algo em comum com Belchior”, pensou, “Mas Mussolini também está morto”, uma ponderação que lhe deixará preocupado por um instante porque não era exatamente fã do segundo. Logo, nada disso importava. Ele estava mais propenso a acreditar que morrer não é um bom negócio, ainda que morto algum tenha reclamado. E lá estava Lourival Rocha, 30 anos de polícia, 20 como detetive no setor de homicídios, encarando o patologista forense de braços cruzados ao lado de uma pequenina lona preta, com pouco mais de 40 cm, mas volumosa, flutuando em uma poça de sangue que, naquela altura, seria facilmente confundida com o acompanhamento de um delicioso cheesecake.

“Qual é a situação?”, disse Lourival Rocha sacando o pacote de Marlboro do bolso interno.

“Acidente de carro, ou suicídio, acho”.

“E que porra eu estou fazendo aqui nesse frio?”, esbravejou irritado com um cigarro pulando na boca. “Eu sou da homicídios, imbecil! Que tipo de hobbies você acha que eu tenho?”. Lourival Rocha não era exatamente uma pessoa difícil, ele só queria que todas as pessoas estivessem mortas.

“Então, o dono do bar…”, explicou o patologista enquanto apontava para um bar, logo ao fundo, com as luzes apagadas. “… disse que houve uma briga mais cedo e achamos melhor te chamar. Pode ter sido outra coisa”.

“‘Pode ter sido outra coisa’… Que diferença faz morrer atropelado ou numa briga? Nas duas hipóteses, você nunca mais fará um imposto de renda”, apenas sugeriu Lourival Rocha, ainda que seu desejo fosse ir embora dali, uma decisão que já havia tomado antes mesmo de sair de casa. Esse é o mal de qualquer trabalho: ao procurar por um, você corre o risco de ter que de fato trabalhar. O patologista acendeu o cigarro rapidamente com um isqueiro tipo zippo porque conhecia os boatos sobre o temperamento de Lourival Rocha e não queria fazer companhia ao defunto — ainda mais naquele frio. Lourival Rocha deu uma tragada e se acalmou. “Já sabe quem é o cara?”

“Uma galinha”, disse o patologista segurando a risada.

Lourival Rocha não riu.

Na verdade, ele quase nunca ria, exceto, uma única vez que viu um gordo correr com mochila. Lourival Rocha também era gordo, aliás, e naquele momento queria socar o patologista que mantinha um sorriso duro no rosto.

“Pode conferir”. O patologista se abaixou e puxou a lona de supetão. Era mesmo uma galinha. Quer dizer, não uma galinha, galinha, mas um anão vestido de galinha. Lourival Rocha fitou rapidamente o pequeno cadáver e voltou os olhos para o patologista — que ainda sorria estupidamente — e naquele instante se arrependeu de ter largado a faculdade de letras. Lourival Rocha se abaixou e começou a apalpar o cadáver até encontrar, por entre as penas, uma carteira. Ele abriu a carteira e lá estava: uma DRT de ator no nome de Filomeno Assunção. Ele encarava a DRT quando o patologista o interrompeu.

“Parece aquela piada”.

“É o quê?!”, esbravejou Lourival Rocha já sem nenhuma paciência porque a vida dura pouco, mas a estupidez humana, esta sim, é eterna.

“A piada da galinha. Parece a piada ‘por que a galinha atravessou a rua’”, completou o patologista achando mesmo que era uma informação que valia a pena ser compartilhada.

“A galinha morre no final?”, perguntou Lourival Rocha com uma raiva aparente. “Não… quer dizer, depende. Tem vários finais para essa mesma piada”.

“Bom, o que temos aqui é uma galinha morta, amigo. Você já pode ir buscar o meu café”, finalizou enquanto voltava o olhar para a DRT. O patologista retirou-se resmungando baixinho como quem faz uma oração e Lourival Rocha comparou a foto 3x4 na DRT com o rosto do cadáver, e, como era de se esperar, a aparência do cadáver era bem melhor.

2.

Eram quase 22h45 do dia seguinte quando Lourival Rocha adentrou um comedy club no centro da cidade, uma espelunca que reunia humoristas e outras atrocidades. No seu íntimo, Lourival Rocha odiava humoristas, com todas as suas forças, não apenas porque nunca ria, mas porque humoristas enganam a morte. O humor é um antítese do medo, afinal, rindo você o supera. E a morte é o maior dos medos. “Não é à toa que a maioria dos epitáfios são humorísticos”, havia concluído certa vez durante um funeral de um amigo que fora espancado com uma bisteca. Mas Lourival Rocha não tinha escolha. Todas as suas pesquisas levaram para esse bar, que o patologista já havia apontado um dia antes, na frente do acidente. Lourival Rocha sentou em uma balcão e pediu um whisky ao bartender. Duplo. Ia ser uma longa noite com trocadilhos, coisas que os humoristas não entendem e todo tipo de estímulo para sacar sua pistola colt. No momento em que levou o copo à boca, uma voz feminina o interrompeu:

“É triste que um homem com seios tão fartos tenha que pagar por suas próprias bebidas”. Era evidentemente uma piada sobre o peso de Lourival Rocha e ele concluiu que se tratava é, claro, de uma humorista. Ao virar o rosto, teve certeza. Era mesmo uma humorista porque a mesma vestia uma camisa escrito “Eu sou uma humorista”.

“Ao menos não puxo uma conversa com batom no dente”, disse Lourival Rocha tentando constranger a humorista que limpou rapidamente os dentes com força, quase que arrancando todo o esmalte. Lourival Rocha não gostava de falar com estranhos porque assim ele poderia acabar fazendo amigos. À propósito, a humorista também tinha batom na testa, mas Lourival Rocha optou por guardar essa informação para o seu próprio entretenimento.

“Existem coisas menos constrangedoras que isso”, disse a humorista tentando contornar a situação.

“Certamente. Você poderia estar usando uma pochete”. Lourival Rocha achava pochetes realmente ridículas. Acreditava que uma pochete pode carregar de tudo, exceto, o auto-respeito.

“Você está aqui por causa do Filomeno?”, a pergunta ganhou a atenção de Lourival Rocha.

“O que você sabe sobre ele?”, perguntou semicerrando os olhos.

“Éramos amigos. Ele ia se apresentar hoje antes de mim, mas… parece que foi atropelado quando atravessou a rua. Acham que ele pode ter se matado também”.

“Eu soube que houve uma briga mais cedo”.

“Bobagem. O produtor tirou ele da programação e eles discutiram. Nada muito grave”. Lourival Rocha não podia acreditar naquilo. Aquela espelunca tinha até produtor.

“Onde posso encontrar esse produtor?”

“Ele está no andar de cima”.

“Obrigado”. Lourival Rocha virou o resto de whisky no copo e partiu. Ele pensou em falar sobre o batom na testa, mas calou-se, afinal, por que guardar essa diversão só para ele?

3.

Lourival Rocha estava esperando em uma pequena sala, fumando outro Marlboro, quando o produtor vestindo um terno adentrou o espaço. “Desculpe por te fazer esperar”.

“Tudo bem. São apenas algumas perguntas”.

“No que posso ajudar?”, disse o produtor prontamente.

“Me conte sobre a briga”.

“Bom…”, o produtor afrouxou a gravata enquanto Lourival Rocha o observava. Ele era especialista em linguagem corporal. Sabia, por exemplo, que se alguém lhe desse uma facada provavelmente estava descontente com alguma coisa.

“… os negócios não vão bem… e ele insistia em usar aquela fantasia estúpida de galinha… então, eu demiti ele. Veja bem, eu gosto de humor inteligente, sabe? Tipo, CQC. Isso é bom para os negócios! Essa é a verdadeira comédia. Não um anão fantasiado de galinha”. Lourival Rocha não precisou de mais nada. Eram 30 anos de polícia, 20 como detetive, e já tinha visto de tudo. Sabia que qualquer pessoa acima de 12 anos em uma biblioteca pública estava lá para aprender a se defender em um tribunal. Sabia que as únicas pessoas que usam terno em um McDonald’s pela manhã estão à caminho de um cartório para assinar os papéis do divórcio. Sabia que pedir para alguém ler um cartão de aniversário em voz alta era a pior coisa que se podia fazer com outro ser humano. E sabia o que se passava ali.

“Quanto exatamente em dinheiro você devia ao anão?”, perguntou Lourival Rocha implacável. O produtor ficou em silêncio por alguns segundos. Lourival Rocha colocou a mão no paletó. E, como já era de se esperar, o produtor arrancou uma pistola da cintura e tentou disparar, mas a colt de Lourival Rocha foi mais rápida. A comediante já não era a única pessoa com a testa manchada de vermelho naquele bar. Lourival Rocha encarou descontente o cadáver. Ele sabia que a violência nunca resolveu um problema de matemática, mas isso não o impedia de tentar.

Lourival Rocha terminava outro whisky no balcão enquanto policiais, ao fundo, colocavam o corpo do produtor em saco plástico preto. O patologista se aproximou. “Como você soube?”.

“Que diabos de bar de comédia demite um anão fantasiado de galinha? Isso é hilário”, disse Lourival Rocha fitando o nada.

“Você fez um bom trabalho. Achámos algumas penas no pára-choque do produtor”.

“Tá certo”, replicou, indiferente. O patologista se mancou e saiu dali por conta própria. Lourival Rocha precisava ficar sozinho. Ele tinha muitos pensamentos sobre tudo que aconteceu. Na verdade, ele tinha uma opinião forte sobre quase todos os assuntos, ainda que não entendesse nada de nenhum deles, o que é um pré-requisito básico para se ter uma opinião hoje em dia. Porém, optou por ficar em silêncio, porque assim era Lourival Rocha. Nesse momento, um mosquito chegou bem perto de sua mão, que segurava o copo de whisky, e quase o picou, mas Lourival Rocha o esbofeteou antes e pensou: “Essa foi por pouco”.

Texto de Daniel Duncan originalmente publicado na Minhocazine.

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