Vivemos em uma altura na qual o humor assume lugar de relevância nas mais variadas esferas, e, portanto, nunca foi tão observado. E existe uma questão em particular que sempre encontra lugar à frente desta lupa: o critério da ofensa. Neste contexto, cada indivíduo cria seu próprio monopólio moral, para decidir, como único juiz possível, o que pode ser ofensivo ou não. O que, de fato, é bastante estranho, uma vez que, em uma sociedade democrática, se ofender não é só normal, como me parece perfeitamente necessário.

Acho impossível viver em um mundo sem ofensa. Segundo minhas pesquisas, a lista de coisas que podem ofender é bastante extensa. Do momento em que acordei até escrever este texto, umas 15 coisas me ofenderam. Às vezes, até o fato deu estar vivo pode ofender algumas pessoas — algo que, inclusive, minha companheira tende a concordar. Os terroristas fundamentalistas dizem que a televisão é uma mídia extremamente perigosa e ofensiva, ao mesmo tempo que, curiosamente, carregam explosivos na cueca. É impressionante a profundidade que a ofensa alcança nesses casos. Eles consideram um suicídio por explosão menos violento do que assistir ao “Caldeirão do Huck”, por exemplo, algo que confesso estar totalmente de acordo. Por outro lado, dia desses, fui abordado por um amigo que disse: “Você viu que vão fazer um novo desenho do Popeye e tiraram o cachimbo dele?”.

E enquanto pensava nas péssimas amizades que cultivo, lembro de perguntar: “E daí?”.

“E daí que você acha isso certo? Você é politicamente correto?”.

“Não, eu sou um adulto”.

Felizmente não somos mais amigos.

O ponto é que: todo mundo tem algo sagrado. Tem quem fique ofendido com o tabagismo de um desenho animado. Tem quem ache que um aparelho eletrônico atenta contra sua fé e, portanto, é ofensivo. O que não me parece lógico é existir grupos a decidirem o que pode ser ofensivo ou não.

Aqui cabe uma observação: admito que sinto um pouco de inveja dessas pessoas. Se ofender é um evento coletivo. As pessoas se juntam quando se ofendem, marcham juntas, fazem passeatas, lutam por uma causa comum; não se ofender com nada, que é o meu caso, é uma realidade solitária, que atualmente divido com mais duas ou três pessoas.

Mentira. Há uma coisa que me ofende enquanto comediante. Me ofende quando as pessoas dizem que piadas não são para ofender, uma vez que me esforço bastante para isso. Nunca gostei da máxima que “piadas são só palavras”. É desrespeitoso com o meu ofício. Se piadas fossem só palavras meu trabalho era muito fácil. Era só subir em um palco e dizer: “avião, chinelo, farofa, batata…”. Não que eu não goste da ideia. Um mundo onde palavras são só palavras é fantástico. Você poderia difamar alguém e caso encerrado. Nos tribunais, a causa estaria ganha. O juiz simplesmente falaria: “São apenas palavras. Quando um mímico te difamar, eu terei prazer em cuidar do seu processo”.

Também não me identifico com a visão salvadora de que “a palavra é uma arma”. Claro, em certa medida, as palavras são armas, mas por uma única razão: não ter acesso às outras. Porque se as pessoas tivessem acesso às outras armas, certamente iriam preferir elas, que são bem mais eficientes. Se um assaltante invade sua casa, você não fala: “Ah, bandido, agora você me paga. Vou ali buscar o dicionário”.

Piadas, palavras, desenhos animados, televisores; tudo pode ofender. E gosto disto. Gosto de viver em um mundo onde as pessoas possam se ofender e se sentirem ofendidas. Não gosto quando tiram o meu direito de ficar ofendido, tampouco quando tiram o meu direito de ofender. Se a liberdade de expressão é o direito de dizer apenas coisas que não são ofensivas, sinceramente ela não precisa existir. A liberdade de expressão só se mostra necessária quando preciso dizer coisas que não agrade a todos. Viver em uma sociedade livre, significa que às vezes precisamos tolerar (sem respeitar) discursos que consideramos ofensivos. É o preço que se paga.

Texto escrito por Daniel Duncan.

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