O novo especial de Jerry Seinfeld é ruim, mas quem se importa?

Após assistir o novo especial de stand-up de Jerry Seinfeld, 23 Hours to Kill, lançado pela Netflix, fiz um exercício que só costumo fazer depois de assistir uma obra, mas dessa vez fiz questão de fazer diferente: entrei em todos os sites possíveis e comecei a ler as críticas sobre o novo stand-up do humorista americano — e só as positivas. O Chicago Suntimes comentou “Com sua excêntrica marca registrada […] Jerry Seinfeld não precisa de mais nada”. O The Guardian escreveu “Sublime stand-up do Sr. Genérico”. E o instituto Roger Ebert completou “…não é o especial de comédia mais ousado da Netflix e nem o mais engraçado, mas essa não deveria ser a métrica”.

Essa não deveria ser a métrica.

Em outras palavras, não interessa se 23 Hours to Kill é um especial com piadas estruturalmente pouco interessantes, com recursos simplistas, feito por um comediante preso à carreira que construiu e não a produção de um bom material… essa não deveria ser a métrica.

O que todas essas críticas têm em comum — e o que li brevemente na minha timeline do Twitter — é uma valorização do comediante, essa figura lendária, o personagem brilhante da sitcom escrita em conjunto com Larry David, desse regresso, de estar de volta aos palcos depois de décadas sem mostrar material novo. Nenhuma delas parecem se importar com o que, ao meu ver, realmente importa: as piadas.

Nesse ponto, adentro em um terreno movediço que sempre tenho profundos problemas: o da subjetividade. E quero falar um pouco sobre isso.

Eu não ri o tanto que deveria, porque, veja bem, o humor é subjetivo.

Eu discordo.

Acredito que as duas posições sejam legítimas. Aliás, de todas as formas de arte, a comédia é, acho eu, uma das mais objetivas. Por motivos óbvios: o riso. A risada é uma comprovação de que um discurso humorístico teve êxito (ou foi compreendido como tal). Não há ambiguidade. É uma atividade cerebral como todas as outras. Uma piada é objetiva; o que pode ser subjetivo é a percepção dela, a quantidade de comicidade que lhe é atribuída. O que faz você rir é subjetivo — como bem mostram as tantas teorias relacionadas ao riso — , no entanto, piadas têm estruturas e formatos definidos, claros, que podem ser analisados e discutidos de maneira objetiva. Em um sentido mais acadêmico, a arte é subjetiva, afinal, significa que qualquer coisa pode ser arte. Uma caneca em uma mesa seria arte. Ainda assim, certamente deve haver critérios objetivos sobre os quais as pessoas possam se referir à arte.

Um dos critérios objetivos sobre a arte é que toda arte exige um artista, uma obra de arte e uma audiência. O artista é quem faz a obra que será experimentada pelo seu público. Isso é importante porque significa que o artista deve ter uma intenção por trás de sua criação. Melhor dizendo, a obra de arte deve ter outros meios além de seu próprio fim para se tornar uma obra de arte. E, nesse sentido, Jerry Seinfeld é um artista e tanto. Com 3 especiais nas costas — dois deles com piadas já conhecidas por todos — , é bonita, diria, a relação que ele desenvolveu aos longo de décadas com seu público, que simplesmente não se importa com o que virá, desde que venha. E embora a arte possa ser vista subjetivamente como um sistema complexo, a base subjacente dessa subjetividade é formada por uma realidade objetiva e, nesse caso, são piadas.

Os melhores momentos do novo show são os 10 primeiros minutos, que quase em tom metafísico, Jerry brinca com a ideia por trás do público ir vê-lo. É o ponto alto do show, diria. O que se segue são piadas com uma estrutura semântica datada: humor descritivo, “observem como isso é” + resoluções preguiçosas, “logo, isso se parece com isso”, ou, em algumas piadas, simplesmente descrevendo tudo em uma crescente até conseguir falar a última frase gritando — mas quem assistiu a série certamente já está acostumado à isso. Em outros momentos, Jerry soa quase como uma caricatura de si mesmo, fazendo bits semelhantes aos do passado, mas, dessa vez, analisando a modernidade, quase como se fosse uma paródia do programa de tevê do qual fez parte. A impressão que fica é a de que Jerry sequer tentou, mas apenas adaptou seu material aos tempos atuais.

E os problemas continuam.

O que aprendi com esse novo show é que alguns comediantes não precisam se ater às mudanças nos modos de se fazer humor e podem se apoiar nas mesmas fórmulas — e, no caso, até as mesmas piadas — que todos nós já conhecemos. Apenas continue sendo o artista que o seu público aprendeu a amar. Sendo assim, o novo show de Jerry Seinfeld é ruim, mas quem se importa? Jerry e nem ninguém parecem se importar.

Você também não deveria.

4/10

O show está disponível na Netflix. Assista e se divirta (ou não):

Texto escrito por Daniel Duncan

Achou o texto legal? Então clique nos botões de compartilhamento, logo abaixo. Fazendo isso, você ajuda este texto a ser encontrado por mais pessoas.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store