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Nanette: a comédia que trouxe à tona a hipocrisia dos humoristas

No que diz respeito ao sentido do humor, só existe um problema: o sentido do humor. Todas as definições sobre comédia são incompletas. De filósofos à humoristas, muitos tentarem e todos falharam buscando estabelecer a coerência entre as várias palavras, conceitos e práticas do riso. Os significados são muitos. Para Nietzsche, a maneira de se libertar da moralidade sombria de várias crenças não é pela raiva, mas pelo espírito da zombaria e da descontração. Em seu ensaio The Absurd, o filósofo Thomas Nagel ecoa essa noção de que o absurdo inerente à existência humana deveria ser motivo de graça e não de agonia. Platão, um dos primeiros a delinear um sentido do humor, sustenta que o riso é uma expressão do sentimento de superioridade sobre os outros. Em seu livro, A Doença, O Sofrimento E A Morte Entram Num Bar, o humorista português Ricardo Araújo Pereira propõe que o sentido do humor está intrinsecamente ligado a dor e o sofrimento. Freud afirmava que piadas envolvem a criação ou o estímulo de uma tensão, que será descarregada através do riso, libertando instintos e desejos agressivos. O humorista brasileiro Chico Anysio talvez fez a mais precisa observação “a comédia é muitas coisas, e, às vezes, até engraçada”. Encontrar um possível sentido do humor é um caminho sem objetividade e muitas respostas.

Contudo, “Nanette”, mostra algo: a ampla hipocrisia da comédia contemporânea. A principal crítica dos humoristas, “entendedores da verdadeira comédia”, é que o show não é humorístico porque não faz rir em determinados pontos. O pesquisador Jan N. Bremmer, ao analisar sociedades indígenas com tradições e costumes próprios, observou como a comédia é um fenômeno cultural e social, sendo totalmente subjetivo e mutável com o tempo. Logo, visões particulares são inúteis nessa discussão. Lenny Bruce, o patrono do stand-up comedy (pelo menos da forma que conhecemos hoje), foi preso inúmeras vezes por falar a palavra “blowjob” no palco. Naquele tempo, isso era considerado pela sociedade americana um crime de obscenidade e tudo que envolvesse essa palavra não deveria ser engraçado, mas criminoso. De certa forma, os que criticam a comediante carregam esse mesmo moralismo tosco do passado. Um comediante tem o direito de dizer o que quiser no palco da maneira que bem entender, inclusive, brincando com a forma, já que a comédia nada mais é que uma linguagem como todas as outras. O resto, é gosto. Comédia não é uma receita de bolo e não precisa seguir padrões. Aliás, muitas das grandes comédias surgiram na experimentação. Annie Hall talvez seja o melhor exemplo. No entanto, para a patrulha de humoristas, o filme de Woody Allen é uma tragédia das mais densas, pois não provoca o riso em sua totalidade.

Dito isso, “Nanette” é uma comédia. Uma comédia que rompe com os limites do discurso humorístico, incluindo a forma como ele é feito. Ou talvez as críticas incisivas da comediante tenham incomodado tanto ao ponto de expor as contradições da classe, que levanta a bandeira da liberdade de expressão somente quando é conveniente.

Texto escrito por Daniel Duncan

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