Não existe lado bom em pandemia

Ilustração Patrick Horvath

Em tempos de pandemia, há uma estranha corrente na internet apontando com muito afinco a incrível produção de material que Shakespeare foi capaz de gerar durante o período da praga. Sei pouco sobre o rapaz, confesso, mas não acredito que ele seja tão prolífico quanto dizem, visto que, pelas minhas pesquisas, ele não escreve nada novo há séculos.

Embora Shakespeare tenha sido capaz de criar peças em um período de quarentena, ainda acho que, em algum momento, ele ficaria o dia inteiro parado, assistindo vídeos no Tik Tok, enquanto se decide: “Talvez eu faça macarrão de novo hoje?”.

E não há problema algum nisso.

À medida que a realidade sombria da vida em quarentena emergiu no mundo, a internet foi inundada com exemplos entusiasmados de produtividade e positividade nesse período. Há de tudo um pouco: cursos online, querendo que você termine aquele roteiro que está na gaveta; ratos de academia exigindo que a sua casa vire um campo de batalha contra a obesidade; e até um bizarro movimento de padeiros que encontram certa satisfação ao exibirem seus pães caseiros nos stories — algo que deve ofender profundamente o nicho de ratos de academia.

Existe uma frase que se tornou quase que um slogan nesses tempos incertos: “O lado bom da quarentena…”. Eu não quero soar negativo aqui, mas não consigo imaginar alguém dizendo durante a Peste Negra: “Veja bem, o lado bom da Peste Negra é que é uma oportunidade excelente para o seu negócio. É um bom momento para repensar e cuidar de si, pelo bem da sua saúde mental”. Naquele tempo o lado bom em uma pandemia era sobreviver, mas, hoje, há prioridades mais urgentes.

Fora que, a cobrança excessiva por produtividade, me ofende. Não gosto quando tentam minimizar o meu desespero, que, diga-se de passagem, foi cuidadosamente processado, como um pão caseiro.

O culto à hiper-produtividade não seria um problema se ocorresse em silêncio no coração dos homens, de forma privada e considerável. No entanto, as redes sociais transformaram esse esforço em julgamento, envergonhando os que, vejam só, se abalaram com uma crise de saúde global que mata milhares diariamente.

O fato é que eu não preciso de ajuda para me sentir mal em meio à uma pandemia. Quando se trata de preocupações, nunca estive em um período de produtividade tão fértil. Escuto muito que a pandemia é um momento bom para conhecer melhor você mesmo. Me desculpe os doutos, mas não aguento mais minha companhia. Preferia quando dividia o fardo da minha presença com outras pessoas. E os que discordam, certamente não me conhecem tão bem quanto eu mesmo.

Existem duas guerras sendo travadas simultaneamente no mundo: Uma contra um vírus de natureza desconhecida que ataca as vias respiratórias, e outra, mais acatada, para ver quem faz a postagem mais altruísta. Mas positividade também pode ser tóxica. Ela chega inicialmente com boas intenções, mas inevitavelmente se transforma em instrumento de autocobrança e flagelo — como se precisássemos de mais. Ainda, mais do que isto, a positividade tóxica regride sentimentos profundamente humanos, como tristeza, dúvida e a necessidade de reclusão. Algumas pessoas querem ficar quietas. E tudo bem. Estamos vivenciando uma situação nova para a qual nenhum de nós estava preparado. Nesse momento, ninguém precisa carregar a estranha sensação de que a pandemia do outro é mais divertida que a minha. Porque não existe lado bom em pandemia. O que existe é uma geração que banaliza o sofrimento. Toda boa notícia hoje é um tiro com uma bala banhada em mel. Nada é bom. O que essa pandemia mostrou é que aquilo que julgávamos essencial, como ambição, status e produtividade, acabam por se revelarem coisas vazias diante dessa condição para qual todos nós estamos condenados: a da morte. E se existe um lado bom, é que, felizmente, a natureza ganhou umas férias da raça humana. Ela precisava ficar em paz.

Texto escrito por Daniel Duncan.

Achou o texto legal? Então clique nos botões de , logo abaixo. Fazendo isso, você ajuda este texto a ser encontrado por mais pessoas.