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Em um episódio de Comedians in Cars Getting Coffee, Jerry Seinfeld conversa com Garry Shandling sobre o falecimento do comediante David Brenner, patrono da comédia observacional, e lamenta por todo seu material que, junto com o comediante, entrou para o esquecimento. Garry Shandling, por sua vez, ri do comentário, e com um saber de experiências feito diz:

Shandling: Sinto muito, Jerry, eu estou em uma fase da minha vida na qual realmente me importo com as pessoas [não apenas com seu material]. Eis o que pensei que você diria: “Você percebeu quando David Brenner morreu a impermanência da vida?”. Nunca pensei: “Deus, lá se vai um monte de piadas boas!”. …


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No final dos anos 90, quando Jon Stewart assumiu a cadeira de Craig Kilborn no programa The Daily Show do Comedy Central, um novo formato televisivo emergiu na tevê norte-americana. Um jornal com ênfase na sátira política poderia ser tão engraçado e divertido quanto um programa que mirasse apenas em acontecimentos da cultura pop. Não demorou muito e o número de programas que seguiam essa linha multiplicou-se como uma verdadeira praga. The Colbert Report, The Nightly Show with Larry Wilmore, Full Frontal with Samantha Bee, Last Week Tonight with John Oliver, Patriot Act with Hasan Minhaj; são apenas alguns de muitos. …


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O escritor João Paulo Cuenca está sendo processado por vários pastores da Igreja Universal por conta da seguinte publicação no Twitter:

“O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, uma paródia da famosa citação de Jean Meslier, que diz: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”.

É difícil fazer uma análise imparcial da frase, especialmente porque estou inclinado a concordar com ela. Mas, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, as petições possuem textos idênticos, o que indicaria uma ação orquestrada pela instituição cristã, que, é claro, segue os ensinamentos de Cristo. Todos nós, verdadeiros conhecedores da liturgia, sabemos que parte da rotina de Jesus consistia em multiplicar pães, curar aleijados e passar tardes inteiras nos tribunais de Justiça. …


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Edward Kinsella III

Há uma frase atribuída a Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov — embora seja uma interpretação de Sartre do trecho original —, que diz:

se Deus não existe, tudo é permitido.

Verdade ou não, é curioso notar como o existencialismo sartreano parece ser exatamente o combustível que a internet precisa. Nos últimos dias, o Twitter foi soterrado com memes de uma foto de Jorge Mario Bergoglio — ou Papa, para os íntimos — segurando a eucaristia. Entendido como um fato sem importância, a blasfêmia é para mim, um herege confesso, motivo de preocupação. …


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Vivemos em uma altura na qual o humor assume lugar de relevância nas mais variadas esferas, e, portanto, nunca foi tão observado. E existe uma questão em particular que sempre encontra lugar à frente desta lupa: o critério da ofensa. Neste contexto, cada indivíduo cria seu próprio monopólio moral, para decidir, como único juiz possível, o que pode ser ofensivo ou não. O que, de fato, é bastante estranho, uma vez que, em uma sociedade democrática, se ofender não é só normal, como me parece perfeitamente necessário.

Acho impossível viver em um mundo sem ofensa. Segundo minhas pesquisas, a lista de coisas que podem ofender é bastante extensa. Do momento em que acordei até escrever este texto, umas 15 coisas me ofenderam. Às vezes, até o fato deu estar vivo pode ofender algumas pessoas — algo que, inclusive, minha companheira tende a concordar. Os terroristas fundamentalistas dizem que a televisão é uma mídia extremamente perigosa e ofensiva, ao mesmo tempo que, curiosamente, carregam explosivos na cueca. É impressionante a profundidade que a ofensa alcança nesses casos. Eles consideram um suicídio por explosão menos violento do que assistir ao “Caldeirão do Huck”, por exemplo, algo que confesso estar totalmente de acordo. Por outro lado, dia desses, fui abordado por um amigo que disse: “Você viu que vão fazer um novo desenho do Popeye e tiraram o cachimbo dele?”. …


PART. II

1.

Já passava das cinco da manhã quando o celular de Lourival Rocha tocou. Era o técnico de necropsia pedindo que ele desse um pulo até o necrotério. Embora tenha acordado extremamente motivado a voltar a dormir, Lourival Rocha confirmou presença. Eram 30 anos de polícia, 20 como detetive no setor de homicídios, e a rotina o chamava. Ele entrou na delegacia bocejando por volta das seis, passando rapidamente pela recepção onde um ventríloquo reportava um assalto. Um policial com uma caderneta pegava o depoimento do boneco. Lourival Rocha entrou em um longo corredor e fez seu trajeto até o necrotério que, por alguma razão, ficava nos fundos da delegacia, ao lado da máquina de doces. Essa última informação não tinha uma relação direta com a primeira, mas não deixava de ser intrigante. “Quem diabos precisa de uma barra de chocolate depois de revirar uma caixa torácica?”, pensou Lourival Rocha com bolsinhas nos olhos que já poderiam acolher um bebê canguru. Haviam poucas coisas que Lourival Rocha considerava importantes. Umas três, na verdade. Dormir, era uma, ou como sua avó costumava dizer, “ensaiar para morrer”. Para ele, dormir era o melhor de dois mundos: você continuava vivo, porém, inconsciente. Quem precisa de contato físico com outro ser humano quando se pode colocar seus pijamas na secadora? Lourival Rocha era alguém que temia a morte mais do que tudo, mas ao mesmo tempo não conseguia conviver com pessoas. Sua existência era puro conflito, tal qual uma abelha com diabetes, ou uma múmia com rinite. Portanto, perder a consciência, ainda que por algumas horas, era algo que lhe era caro. Ele não era exatamente o que podemos chamar de misantropo. Lourival Rocha não tinha aversão aos seres humanos, inclusive, tinha até amigos que eram. Ele apenas desejava que as pessoas desaparecem. Mas assim era Lourival Rocha. Desde que não precisasse lidar com o mundo, sua felicidade estava assegurada. …


PART. I

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1.

Lourival Rocha desceu da viatura e pressionou o trench coat contra o corpo enquanto o vento frio acertava seu rosto com tanta força que mais parecia estar munido de um soco inglês. Ele dobrou os joelhos e passou pela fita amarela. Com o olhar baixo, ele viu o horror a seus pés. Imediatamente ele pensou na fragilidade desta estranha condição que é estar vivo, em como a simples picada de um mosquito pode ser capaz de colocá-lo abaixo de sete palmos e, obviamente, no esquecimento. Era assim que Lourival Rocha via as coisas nessa cidade. Um dia você está vivo, no outro, se culpa por não ter comprado uma raquete elétrica adequada. “Ao menos teria algo em comum com Belchior”, pensou, “Mas Mussolini também está morto”, uma ponderação que lhe deixará preocupado por um instante porque não era exatamente fã do segundo. Logo, nada disso importava. Ele estava mais propenso a acreditar que morrer não é um bom negócio, ainda que morto algum tenha reclamado. …


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Ilustração Patrick Horvath

Em tempos de pandemia, há uma estranha corrente na internet apontando com muito afinco a incrível produção de material que Shakespeare foi capaz de gerar durante o período da praga. Sei pouco sobre o rapaz, confesso, mas não acredito que ele seja tão prolífico quanto dizem, visto que, pelas minhas pesquisas, ele não escreve nada novo há séculos.

Embora Shakespeare tenha sido capaz de criar peças em um período de quarentena, ainda acho que, em algum momento, ele ficaria o dia inteiro parado, assistindo vídeos no Tik Tok, enquanto se decide: “Talvez eu faça macarrão de novo hoje?”.

E não há problema algum nisso. …


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É. OVNIs existem. A confirmação veio através de três vídeos publicados pelo Pentágono que mostram objetos voadores não identificados zunindo pelos céus, que é exatamente o tipo de notícia tranquilizadora que espero ouvir durante uma pandemia. Em Janeiro, tivemos o prenúncio de uma Terceira Guerra Mundial, em Fevereiro, países definharam em chamas e, em Março, fomos abençoados com uma pandemia. Ao que tudo indica, 2020 inspirou seu roteiro na filmografia do Michael Bay. Eu compraria uma espingarda até o mês de Junho. Um apocalipse zumbi me parece um caminho inevitável.

Os vídeos são, de fato, bem impressionantes, especialmente, porque não há qualquer tipo de engarrafamento. E não deixam dúvidas. Segundo o governo Trump, OVNIs são reais, ao contrário da certidão de nascimento de Barack Obama. E nos colocam em uma situação inquietante: Ok. OVNIs são reais. Agora, será que alienígenas existem? Certamente. E acho que devemos desculpas a eles. Afinal, por que criaturas atravessariam galáxias inteiras evitando qualquer tipo de contato direto? …


Após assistir o novo especial de stand-up de Jerry Seinfeld, 23 Hours to Kill, lançado pela Netflix, fiz um exercício que só costumo fazer depois de assistir uma obra, mas dessa vez fiz questão de fazer diferente: entrei em todos os sites possíveis e comecei a ler as críticas sobre o novo stand-up do humorista americano — e só as positivas. O Chicago Suntimes comentou “Com sua excêntrica marca registrada […] Jerry Seinfeld não precisa de mais nada”. O The Guardian escreveu “Sublime stand-up do Sr. Genérico”. …

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Daniel Duncan

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